Guia da FEBRABAN apoia instituições financeiras na implementação das IFRS S1 e S2 e reforça agenda de sustentabilidade no setor
A sustentabilidade deixou de ser um tema paralelo nas empresas para ocupar espaço cada vez mais relevante nas decisões financeiras e estratégicas. Nesse cenário, a FEBRABAN lançou o Guia de Implementação da IFRS S1 e da IFRS S2 para Instituições Financeiras Brasileiras, desenvolvido com organização e parceria técnica da blendON. A publicação chega para apoiar bancos e demais instituições financeiras na aplicação prática das normas internacionais de divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade.
A iniciativa acompanha o avanço da agenda do International Sustainability Standards Board (ISSB) e do Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade (CBPS), que vêm redefinindo a forma como organizações identificam, gerenciam e comunicam riscos e oportunidades relacionados a temas ambientais, sociais e de governança.
Embora parte do mercado tenha acompanhado discussões recentes sobre mudanças na obrigatoriedade de determinadas divulgações, as instituições financeiras continuam avançando na implementação das normas, especialmente em razão da Resolução CMN nº 5.185. Nesse contexto, o guia busca traduzir exigências regulatórias em orientações práticas, facilitando a jornada de adequação do setor.
Segundo a gerente de Sustentabilidade da FEBRABAN, Cintia Oller Cespedes, o material representa muito mais do que um instrumento de conformidade regulatória. “Para as Instituições Financeiras não houve mudança na obrigatoriedade regulatória, uma vez que a Resolução CMN 5.185/2024 continua válida e sem alteração. Além disso, o Guia vai além do cumprimento regulatório, ele traduz as IFRS S1 e S2 para a realidade brasileira e ajuda as empresas a integrar sustentabilidade, gestão de riscos, estratégia e finanças em uma única lógica de tomada de decisão. Em um cenário de crescente demanda por transparência de investidores, financiadores e demais stakeholders financeiros, a capacidade de identificar, mensurar e comunicar riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade permanece um diferencial competitivo. O material também fortalece governança, controles internos e qualidade das informações, preparando as organizações para um mercado cada vez mais orientado por transparência.”
Na visão de Cintia, um dos principais diferenciais do guia é apresentar caminhos práticos para que as organizações integrem sustentabilidade à gestão do negócio e à geração de valor. “Destaco três aspectos principais: a abordagem de materialidade financeira, que ajuda as empresas a focarem nas informações realmente relevantes para investidores e credores; a integração entre sustentabilidade e o reporte financeiro, demonstrando como riscos climáticos e socioambientais afetam estratégia, desempenho e geração de valor, e o foco em governança, gestão de riscos, métricas, metas e asseguração, criando uma estrutura prática para transformar sustentabilidade em parte da gestão corporativa, não apenas em um exercício de comunicação.”
A especialista ressalta, porém, que o processo exige mudanças importantes dentro das empresas, especialmente na integração entre áreas e na qualidade dos dados utilizados para o reporte. “O desafio é estruturar processos, dados, controles e integração entre diferentes áreas da organização para produzir informações consistentes e conectadas à realidade financeira do negócio. Também exige amadurecimento na avaliação de riscos, materialidade e mensuração de impactos. Já as oportunidades são significativas: melhoria da gestão de riscos, maior alinhamento estratégico, aumento da confiança de investidores e financiadores, fortalecimento da governança e maior capacidade de identificar oportunidades de negócio ligadas à transição para uma economia mais sustentável. As empresas que avançarem nesse caminho estarão mais preparadas para responder às expectativas do mercado e às transformações regulatórias futuras.”
Avanço na qualidade das informações
Já Haroldo Levy Neto, membro da Comissão Julgadora do Prêmio de Boas Práticas ESG ANEFAC & BDO, diretor técnico da APIMEC Brasil e coordenador de Relações Institucionais do CBPS, a estrutura definida pelos reguladores brasileiros merece reconhecimento por oferecer previsibilidade ao mercado. “Temos que elogiar o processo organizado pelo CMN/BCB!”
Entre os pontos destacados por Haroldo está o cronograma de implementação das novas exigências. “Empresas abertas e instituições S1/S2 devem obrigatoriamente reportar dados de 2026 em 2027, enquanto instituições S3 e demais consolidadas passam a reportar em 2029 (dados de 2028). No primeiro ano de divulgação, o relatório pode ser entregue em até 180 dias da data-base (até junho). Nos anos subsequentes, ele deve ser publicado junto com as demonstrações financeiras anuais.”
Outro avanço importante, segundo ele, é a exigência de auditoria com asseguração razoável para os relatórios regulatórios. “Auditoria com nível de asseguração razoável é obrigatória para o reporte regulatório (com exigência de testes substantivos e de controles internos).”
Ao mesmo tempo, o especialista considera que as regras de transição trazem equilíbrio entre rigor e viabilidade operacional para as organizações. “É permitido divulgar apenas informações climáticas (CBPS 02) no primeiro ano de publicação, postergando outros temas de sustentabilidade do CBPS 01.”
Sobre a dispensa inicial do reporte de emissões de Escopo 3, Haroldo avalia que a medida foi necessária para acomodar as dificuldades enfrentadas pelas empresas da cadeia produtiva. “Fica dispensada a apresentação de emissões de Escopo 3 (incluindo emissões financiadas/carteira de crédito) no primeiro ano de reporte. Realmente, faz sentido, pois o grau de dificuldades é muito grande para a empresas de médio e pequeno portes, que fazem parte da cadeia produtiva, e não têm nem o conhecimento básico sobre o tema.”
Ele também observa que algumas flexibilizações temporárias podem trazer desafios para a análise dos dados, mas contribuirão para uma transição mais estruturada. “No primeiro ano de adoção, a instituição não precisa apresentar os dados comparativos do exercício anterior. Isso é um problema para os analistas, mas já no segundo ano teremos esses comparativos. No 1º ano, é permitido utilizar metodologias alternativas de cálculo de emissões além do padrão GHG Protocol. Essa flexibilidade no 1º ano não é boa para as análises, mas também, no 2º ano, já padroniza.”
Sustentabilidade integrada às demonstrações financeiras
Na visão de Haroldo, uma das mudanças mais relevantes é que a sustentabilidade passa a fazer parte da mesma lógica utilizada para avaliar resultados e desempenho financeiro. “O relatório passa a integrar o pacote de demonstrações financeiras de propósito geral. Exige-se mensurar os efeitos financeiros correntes e antecipados (curto, médio e longo prazos) das mudanças climáticas e da sustentabilidade sobre a posição patrimonial, liquidez e desempenho financeiro.”
O novo modelo também eleva o nível de governança e confiabilidade das informações. “Necessidade de criar trilhas de auditoria para os dados e formalizar os julgamentos de materialidade e premissas técnicas para atender aos requisitos de auditoria, o que traz muito mais confiança nas informações, que é básico para se poder utilizar essas informações nas avaliações de investimentos.”
Ao finalizar, o especialista ressalta que aspectos como gestão de riscos climáticos, análises de cenários, emissões financiadas, responsabilidades entre áreas corporativas e alinhamento com os ciclos contábeis passam a fazer parte da rotina das instituições financeiras. Para ele, trata-se de uma evolução natural e necessária para o mercado. “Enfim, já é um grande avanço da qualidade das informações divulgadas sobre sustentabilidade, que continuará, sem dúvida, por sua relevância para toda a sociedade.”
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